Centro Cultural Sesc Quitandinha celebra os 80 anos com exposições

Exposição Da Kutanda ao Quitandinha

Da Kutanda ao Quitandinha é composta por programação artística alusiva à história da edificação e do território onde está inserida. Obras de artistas que fizeram história no palácio, como Anna Bella Geiger, Tomás Santa Rosa e Wilson Tibério, dialogam com trabalhos de nomes da nova geração, como Ana Beatriz Almeida, PV Dias, Gê Viana, Rafaela Pinah, Wallace Pato e Aline Castella.

O Centro Cultural Sesc Quitandinha, localizado em Petrópolis, Rio de Janeiro, inaugurou a exposição “Da Kutanda ao Quitandinha – 80 anos”. Esse projeto marca o início das celebrações das oito décadas do edifício, que, graças à sua arquitetura singular, destaca-se como um dos principais cartões postais da cidade serrana.

Inaugurado em 1944, o local abrigou um dos maiores hotéis-cassino da América Latina, mas teve sua vocação transformada após o presidente Eurico Gaspar Dutra proibir os jogos de azar no Brasil, em 1946. Desde 2007, a área monumental pertence ao Sesc RJ, que a transformou em um Centro Cultural em abril deste ano.

Com curadoria geral de Marcelo Campos, a programação, que se estende até 25 de fevereiro, conta com exposições, shows musicais e espetáculo de teatro, além de seminários e oficinas. As atividades fazem referência à história da edificação e do território onde ela está inserida – uma região com forte identidade afro-brasileira por conta dos quilombos formadores da cidade de Petrópolis.

O carro-chefe do projeto é a exposição, dividida em seis núcleos curatoriais espalhados pelos diferentes salões do palácio. Além do trabalho de artistas da nova geração, há obras e referências históricas a nomes importantes das artes no Brasil e que se relacionam com o monumental edifício petropolitano.

Obras simbolizam a ancestralidade no território do Quitandinha

O primeiro núcleo, com curadoria de Filipe Graciano e Renata Aquino, traz fotografias, pinturas e vídeos que remontam à origem histórica da presença afrodiaspórica neste território. O Nome “Quitandinha”, inclusive, tem origem no quimbundo, língua falada em Angola, antigo Reino do Dongo, lugar de origem de muitos dos africanos que formam a população afro-brasileira. A profissão das quitandeiras – mulheres pretas que se fizeram presentes na quitanda – movimentou uma fatia importante da economia do século XIX. Neste espaço, destacam-se obras de Ana Beatriz Almeida, PV Dias, Gê Viana, Rafaela Pinah, Wallace Pato e Aline Castella.

A história por trás do criador de pinturas do palácio

Tomás Santa Rosa (1909 – 1956) – primeiro cenógrafo moderno brasileiro e diagramador e gravurista de livros do país – é tema do segundo núcleo expositivo, com curadoria de Marcelo Campos e Bruno Pinheiro.

Tomás Santa Rosa em seu ateliê, 1955

Suas obras, que decoram alguns espaços do Palácio Quitandinha, ganharam tratamento e restauro e poderão ser vistas na Piscina, Galeria das Estrelas e Jardim de Inverno. O visitante poderá apreciar criações de diversas fases da sua carreira, livros ilustrados por ele e maquetes de cenários de sua autoria.

Conheça Tomás Santa Rosa, considerado pai do livro moderno e protagonista nas artes gráficas brasileiras

Versátil artista que se destacou como pintor, ilustrador, designer, cenógrafo, professor, decorador e figurinista. Reconhecido como o “pai do livro moderno”, desempenhou papel fundamental nas artes gráficas brasileiras, rompendo com o academicismo e deixando uma notável marca na arte moderna do país. Em meio às celebrações dos 100 anos da Semana de Arte Moderna, a contribuição crucial de Santa Rosa não pode ser ignorada ao se discutir o impacto do modernismo no Brasil.

Outro destaque é a cenografia alusiva aos adereços criados por ele para o carnaval de rua de 1954.

Água-viva gigante faz alusão à obra de Tomás Santa Rosa

O terceiro núcleo terá uma água-viva inflável de oito metros de altura, iluminada por luzes LED, ocupando o Salão Mauá, a cúpula do Centro Cultural. Assinada pelo artista plástico paulistano Felipe Yung, a peça dialoga com as obras de Tomás Santa Rosa, que, inspiradas no livro “20 mil léguas submarinas”, de Julio Verne, decoram a piscina interna do edifício.

Exposição arte brasileira

O espaço, até então fechado ao público, abrirá à visitação pela primeira vez para apreciação das obras.

Anna Bella Geiger e os 70 anos da primeira exposição de arte abstrata

Realizada em 1953 no então Hotel Quitandinha, a 1ª Exposição Nacional de Arte Abstrata é recordada no quarto núcleo da mostra. Ela apresenta peças de artistas que participaram do evento, com destaque para Anna Bella Geiger, que, aos 90 anos, é uma das mais importantes em atividade.

Exposição arte brasileira

A artista visual participou de momentos emblemáticos da história da arte no Brasil como uma mulher pioneira na gravura, na videoarte e na pesquisa em diversos suportes, marca registrada de sua produção artística.

Anna Bella Geiger, artista visual do Brasil na arte brasileira

O público também terá acesso a trabalhos exibidos em 1953 e produções inéditas.

Wilson Tibério, artista negro com primeira exposição no Quitandinha

O quinto núcleo expositivo, com curadoria e pesquisa de Bruno Pinheiro, homenageia Wilson Barcelos Tibério (1920-2005), artista gaúcho radicado no Rio de Janeiro e que teve sua primeira exposição individual no então Hotel-Termas Quitandinha, em 1946.

Wilson Tibério, artista visual do Brasil na arte brasileira

Wilson Tibério (1916–2005)
Cena de candomblé, sem data (provavelmente década de 1940)
Aquarela e grafite sobre papel.
Museu Afro Brasil, São Paulo (SP)

As telas em exposição eram parte do interesse contínuo do pintor em documentar o cotidiano de pessoas negras como ele próprio.

Leia o artigo Wilson Tibério (1916–2005) – Primeiras Notas Biográficas sobre ‘O Negro Mago do Pincel’

Telas, documentos e vídeos relembram a mostra, que foi noticiada nos dias seguintes em jornais do Rio e de Petrópolis como parte de uma iniciativa do Quitandinha de divulgar a pintura nacional em seus salões e corredores.

Assista ao documentário Les Statues Meurent Aussi (As estátuas também morrem, 1953) que Chris Marker, Alain Resnais e Ghislain Cloquet documentaram Wilson Tibério em seu ateliê em 1953. O filme foi encomendado pela editora Présence Africaine e aborda os impactos do colonialismo nas artes africanas. Sua exibição na França foi censurada até 1963 devido à sua crítica anticolonial. Tibério faz sua aparição no filme aos 24 minutos e 13 segundos, momento em que o narrador recita o seguinte trecho:

Quitandinha é história: das celebridades à política mundial

Por fim, o sexto núcleo ocupa a varanda com exposição de imagens, documentos, áudios e objetos dos primeiros anos de funcionamento do Hotel Quitandinha. A pesquisa e o desenvolvimento, de Ana Cunha, Flávio Menna Barreto e Jeff Celophane, conta a história e mostra as diferentes facetas do empreendimento – tudo ambientado com sons e músicas de época. Inaugurado um ano antes do fim da Segunda Guerra Mundial, foi palco da Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança no Continente, em 1947, e também recebeu celebridades brasileiras e hollywoodianas.

Arte visual do Brasil. Músicas da Rádio Sesc Quitandinha na época de sua inauguração.

Programação multicultural

Ao longo do período da exposição, haverá shows, apresentações teatrais, bailes, exibição audiovisual, seminários e uma série de outras atividades que aprofundam as reflexões sobre a exposição.

SERVIÇO

Exposição “Da Katunda ao Quitandinha – 80 anos”
Curadoria geral: Marcelo Campos
Curadores: Marcelo Campos, Bruno Pinheiro, Filipe Graciano e Renata Aquino

Centro Cultural Sesc Quitandinha – Avenida Joaquim Rolla, nº 2 – Petrópolis/RJ
De 1º de dezembro a 25 de fevereiro
Terças a domingos e feriados, das 10h às 17h
Entrada franca


Curadoria e produção de conteúdo digital para artes no Brasil

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